Páginas

Mostrando postagens com marcador LIVRO-ME. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LIVRO-ME. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Clarice está viva em mim

Por Ellen Reis

Muitas pessoas, amigos e leitores deste blog, insistiram com tamanha veemência para que Clarice se tornasse assunto. Tal insistência chegou a beirar a cobrança, por isso resolvi ceder às pressões: “Não acredito que você ainda não escreveu nada sobre Clarice...”, “O blog só será completo quando Clarice passar por lá”, “Só quando Clarice aparecer é que eu vou ler a categoria Livro-me do blog”. Isso com certeza perturbou-me. Fiquei feliz por saber do tamanho da influência de Clarice! Deixo Claro que li muito mais sobre a escritora do que suas obras. Isso é um disparate, eu sei. Mas eu resolvi fazer o caminho inverso com Clarice: eu quis saber quem é Clarice Lispector e só depois ler suas obras. Isso tem me ajudado a entendê-la. Vamos a ela.

O que explicaria um professor chegar para Clarice e dizer que não entende o que ela escreve e depois uma adolescente confessar à escritora que seus livros são os primeiros de sua cabeceira? A ucraniana que teve sua infância e adolescência registrada no nordeste brasileiro - em Maceió; em Recife: à beira do Capibaribe; em Olinda – tomava banhos de mar, antes de o sol nascer, pegava o bonde ainda vazio e a madrugada escura; aos domingos ia visitar a casa de sua empregada nos mocambos e sentia uma profunda necessidade de “querer ser” para mudar aquela situação.

Aos poucos, na visão de muitos críticos, Clarice se constituiu como uma escritora enigmática, misteriosa, mística e hermética. No entanto, o que a escritora fez em toda a sua vida foi revelar a própria essência humana que já é complexa por si só. A completude de sua literatura e a quantidade de temas que podemos encontrar nos seus escritos fez de Clarice “a mestra das grandes respostas”. E mesmo com o desenvolvimento da tecnologia e o surgimento das redes sociais, os livros de Clarice não foram esquecidos. Pelo contrário, Lispector está ainda mais presente.

Ela estranha de ser ela, evocava a existência na medida em que insistia em viver. E essa vivência era “apesar de” qualquer coisa. Não se somava, era “uma cadeira e duas maçãs”. Morria, cada vez que terminava um livro morria. Precisava de apenas um sopro de vida para permanecer viva no próximo livro que talvez escrevesse. Mas “A Hora da Estrela” foi a sua hora, e ela bem sabia disso. O livro representou inicialmente a morte da escritora, e depois a raiz profunda que Clarice se tornaria com a  vitória do câncer.

No último dia 10, Clarice Lispector completaria 91 anos se estivesse viva. Para marcá-lo, foi criado o dia de Clarice Lispetor, o dia C. Em vários estados brasileiros foram feitas homenagens à escritora: saraus e leituras de crônicas e histórias infantis. No Recife, na Praça Maciel Pinheiro-Boa Vista, o projeto Hora de Clarice ganhou destaque, na Livraria Jaqueira. A escritora Fátima Quincas esteve à frente do projeto. Clarice foi a segunda escritora a ganhar um dia só para ela. Antes, foi a vez de Carlos Drummond de Andrade que no dia 10 de Outubro de 2011 completaria 119 anos. Hoje a data é conhecida como o Dia D.

Há dois livros que merecem indicação, caso alguém tenha interesse em se aprofundar na escritora, que são: “Clarice,” de Benjamin Moser e “Clarice Fotobiografia” de Nádia Battella Gotlib”. Essas duas leituras têm me ajudado a ler e entender a história dessa escritora que, todos nós sabemos, vem marcando geração após geração, mesmo depois de sua morte. 


"Clarice Fotobiografia" e "Clarice,"

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os 110 anos de Cecília Meireles: retrato, motivo e memória

“Sente-se que Cecília está sempre empenhada em atingir a perfeição”, “Poesia do sensível e do imaginário”, “Ela é desses artistas que tiram seu ouro onde o encontram, escolhendo por si, com rara independência”, “A noção ou sentimento de transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”. Sejam nas palavras dos poetas Mário de Andrade, Darcy Damasceno (é também crítico) e Manuel Bandeira, ou nas da própria Cecília Meireles, a escritora é muito mais do que uma representante da segunda fase do movimento modernista. Ela foge de qualquer enquadramento ou rotulagem.

Enquanto que muitos escritores faziam uso de uma linguagem rebuscada, um pouco estranha (Na tentativa de chocar o público. Característica desempenhada principalmente pelos escritores da primeira fase modernista), Cecília era de uma linguagem simples, sem ser reducionista, e ao mesmo tempo tinha um dom de tornar tudo universal. Algo muito recorrente em sua obra é a presença de temáticas como o efêmero, o eterno, o tempo, a vida, a morte, a solidão, a luta e tantos outros núcleos de palavras que qualquer tentativa de listagem seria inapropriada e desleal caso ocorresse falha de memória. 

Cecília Benevides de Carvalho Meireles lidou muito cedo com a morte: seu pai morreu três meses antes do seu nascimento e sua mãe morreu quando tinha dois anos de idade, foi então criada pela avó. Participou da chamada “corrente espiritualista” (juntamente com os que formariam a revista “Festa”, considerada neo-simbolista. Muitos dizem que Cecília percorreu o caminho do sonho, da fantasia, da solidão e do padecimento e que seus versos caminham lado a lado com o lirismo.

Jornalista Vera Barroso
Nas palavras da jornalista Vera Barroso isso pode ser exemplificado. “Cecília é uma poeta lírica, lírica quando fala do mar: “Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar”; Cecília Meireles é lírica quando fala da solidão: “Eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, sem o lábio amargo”; Cecília Meireles é lírica quando fala para as crianças: “A avó vive só. Mas se o neto meninó, Mas se o neto Ricardó, Mas se o neto Travessó vai à casa da vovó os dois jogam dominó”; Cecília Meireles é lírica quando fala de si mesma: "Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”.”

Gosto de lembrar de Cecília de duas formas: como a “padroeira da música” (como o significado do seu nome). A forma como ela analisa o mundo e o materializa perpassa pelo caminho da musicalidade. É isso! Cecília é música. Ou como a “irmã das coisas fugidias”. Nas palavras da própria escritora ela se define: “Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno”. No entanto, Cecília e sua obra não experimentaram a crueldade do tempo e a fugacidade. A morte não marcou presença na literatura dessa escritora que permanece até os dias atuais. No dia 7 de Novembro de 2011, completaria 110 anos se estivesse viva! Há, portanto, motivo para comemorações - na tentativa de retratá-la - de forma que ela permaneça na memória das gerações futuras. Cecília é retrato, motivo e memória.

Confira o poema "Retrato", Cecília Meireles, musicado pela cantora e compositora Sueli Costa:



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Semana da cultura Afro-Lusófona: o escritor moçambicano Mia Couto

por Ellen Reis
Devo confessar que, ao ouvir falar de Mia Couto, pensei se tratar de uma mulher. E quando soube que era natural de Moçambique já pensei em uma negra exuberante. Ainda bem que eu não fui a única: em uma visita diplomática à Cuba, os assessores de Fidel Castro presentearam Mia com artigos femininos.(tremenda gafe)

Mia, desde criança, tinha certa necessidade em desobedecer às normas. 
Segundo ele, aos dois anos de idade decide mudar o seu nome de António para Mia, devido a sua imensa afetividade com os gatos. Pensava ser um deles. Mais tarde, essa inquietação em modificar as coisas é refletida em sua literatura. Comparado ao poeta brasileiro João Guimarães Rosa por, assim como ele, inventar palavras, Mia é um dos maiores escritores contemporâneos africanos e da literatura de língua portuguesa.

Não somente por ser o autor de seu país mais traduzido no mundo, por ser um dos compositores do hino nacional de sua pátria, por ter sido o primeiro africano a vencer o União Latina das Literaturas Românticas ou por seu romance “Terra Sonâmbula” ter sido eleito um dos 12 melhores livros de toda a África do século XX, que merece aplausos. Ele é, antes tudo, um escritor. Sem os seus prêmios ele continua sendo um escritor que luta contra o analfabetismo que atinge a metade do seu país. Sua nação está entre os 20 países mais pobres do mundo. Durante o processo de luta pela independência de Moçambique, Mia não podia pegar em armas porque era um moçambicano branco, filho de portugueses, e a Frente de Libertação de Moçambique, da qual fazia parte, tinha um componente racista muito forte. E, por ser branco, não era confiável entregar-lhe uma arma. Então, a sua única saída foi combater, como fez, na área política do ensino.

Longe de querer mostrar um país caricatural e folclórico, Mia tenta mostrar em suas obras aquilo que é mais genuíno em seu país: sua cultura, como de fato ela é. Diferentemente do olhar que nos foi dado pelos europeus, Moçambique, segundo o escritor, tem se libertado da necessidade de reafirmação da sua identidade e africanidade. “O escritor africano está fazendo alguma coisa que é profundamente universal. Ele está fazendo literatura, ponto final”, declarou. Mia exalta a imagem de escritor ao dizer que “o escritor é um vencedor quando, perante a página em branco, é capaz de superar essa solidão”.


Para finalizar, “deixo na boca o gosto dos versos” de Mia Couto:

Identidade

Preciso ser um outro
Para ser eu mesmo

Sou o grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
Aguardando pelo meu passado
Ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
No mundo porque luto nasço.

                                      (Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas)


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Oswaldo de Andrade entre dois amores

Por Ellen Reis

Kamiá, Maria de Lourdes, Tarsila do Amaral, Pagu, Julieta e Maria Antonieta foram as seis mulheres com as quais Oswald de Andrade se casou. Dentre essa meia dúzia de mulheres e de tantas outras paixões, as duas grandes divas do movimento modernista são as mais conhecidas. Pagu dividiu com o escritor a ideologia comunista e Tarsila do Amaral o amor pelas artes plásticas.

Manteau Rouge, auto-retrato de 1923
Depois de morar um longo tempo na Europa, Tarsila retornou ao Brasil quatro meses depois das apresentações da Semana de Arte Moderna de 22. Isso não impediu que ela movimentasse São Paulo juntamente com Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Oswald e Mário de Andrade, o “grupo dos cinco”. Na história da pintura Tarsila não foi apenas uma mulher que lutava por espaço nas paredes das galerias; ela mexeu com a brasilidade, com os costumes, com os padrões. Além de ser uma mulher forte, ela conseguiu representar a própria simbologia de Brasil que há muito se buscava. O seu quadro “Abapuru”, por exemplo, é nada menos do que o representante do posterior Movimento Antropofágico do qual Oswaldo de Andrade foi idealizador. Tarsila encantou Oswaldo de Andrade com quem foi casada quatro anos. Essa parceria contribuiu para que ambos alavancassem suas produções; ela na pintura e ele na literatura. A paixão dos dois resultou em frutos eternos: a “musa do modernismo” inventou o conceito de brasilidade e o idealizador do Manifesto de mesmo nome abriu as portas para o que hoje conhecemos de antropofagia.

Pagu
Depois de rasgar a seda em Tarsila, vamos descer o sarrafo em Patrícia Rehder Galvão. Calma, também não é assim. Ouso dizer (perdoem-me os admiradores e experts em Oswald) Patrícia teve seu quinhão na construção do Oswald-ser humano. Com o pseudônimo de Pagu, a musa revolucionária de Oswald, além de chocar a sociedade da época com seu estilo e valores conseguiu arrebatar o coração do “palhaço da burguesia”. Fumar na rua, dizer palavrões, usar blusas transparentes e manter os cabelos bem cortados e eriçados foram algumas das extravagâncias da menina-precoce. Dizem as más línguas que o escritor teve um relacionamento amoroso com Pagu enquanto ainda estava casado com Tarsila. Essa foi uma das razões pela qual ele recebeu o título de mulherengo. Em sua defesa, Oswaldo argumentava que, enquanto os homens mantinham amantes escondidas, ele se casava com as mulheres por quem se apaixonava. Fofocas à parte, Pagu e Oswald se tornaram militantes do Partido Comunista, se casaram e, dessa união, surgiu um fruto: Rudá de Andrade, filho do casal. 

Enquanto Tarsila, foi a musa inspiradora da carreira do Oswaldo-escritor, Pagu foi a musa que instigou a coragem e o sentimento revolucionário do poeta. E aproprio-me das palavras do filho do casal para dizer que “Creio que a obra de Oswald não pode ser desvinculada de sua vida”. Tarsila ou Pagu? Antes de tudo Oswald era apaixonado pela mulher e pela arte. Se elas estivessem em um só coração não precisava de mais nada para que o escritor ficasse viciado.


Não sei se dá pra enxergar a legenda da foto então vou transcrever:
Da direita para a esquerda: Pagu, Anita Malfatti, Benjamin Peret, Tarsila do Amral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreyra e Marimoon Gathier integram o grupo "antropofágico" desembarca no Rio de Janeiro, em 1929.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Vamos à história dos subúrbios


Por Ellen Reis

Considerado como o maior nome da literatura nacional Machado de Assis, como poucos, conseguiu perpetuar sua obra. E mais: conseguiu permanecer um mistério. Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Para tentar desvendar, ou pelo menos entender esse enigma, o organizador do livro “Quem é Capitu?”, Alberto Schprejer, tenta reunir nessa obra os contos, as crônicas e os ensaios sobre a personagem mais enigmática da literatura brasileira. Personalidades como Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Millôr Fernandes, Luis Fernando Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Mary Del Priore, Fernanda Montenegro, Silviano Santiago, John Gledson, Roberto DaMatta, Gustavo Bernardo, Luiz Alberto P. de Freitas, Daniel Piza, Otto Lara Resende e Carla Rodrigues ousam desvendar o mistério que está acima de qualquer outro: Quem é Capitu?

Em Dom Casmurro, Machado de Assis tenta e consegue, com tamanha maestria e fina ironia, colocar uma ‘pulguinha’ atrás da orelha do leitor com o maior enigma da literatura brasileira. Passado mais de um século da sua criação, a Capitu de Machado é muito mais do que uma mulher forte e dona do seu destino, como diz a atriz Fernanda Montenegro, “os olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada da personagem de Machado de Assis são o patrimônio feminino brasileiro”. Para a atriz, o Brasil, embora seja nome masculino, é no fundo uma Nação Capitu. Como mulher dos palcos, Fernanda analisa Capitolina com o olhar de uma atriz: é destrinchando um tema, discutindo o texto, perpassando cada parte que se chega à clara conclusão de que Capitu é inconfundivelmente a cara da brasilidade.

Com o texto intitulado “Não traiam o Machado” Otto Lara Resende coloca em dúvida a própria dúvida do adultério. “Dom Casmurro” saiu em 1900 e Machado morreu em 1908, nenhum crítico jamais ousou negar o adultério de Capitu. Esse questionamento é obra de professores que tentam confundir a cabeça dos alunos. Machado jamais explicitaria um adultério “com uma grosseira cena como um flagrante policial”. Mas, com fragmentos como “O filho é a cara do pai” (só quem leu o livro vai poder identificar em que contexto a frase é dita) prenuncia uma das provas incontestáveis de que não há enigma. Capitu é culpada! E nem tente “virar o romance pelo avesso. Machado merece respeito”. E para os professores: “ensinar errado é pecado capital”.

Escobar e Bentinho minissérie Capitu (Rede Globo)
O gênio Millôr Fernandes, como sempre, é a maior surpresa do livro. Enquanto que os outros 14 discutem a personalidade e características de Capitu, Millôr analisa “O outro lado de Dom Casmurro”. O lado que ninguém percebe é o que Millôr aprecia: a relação de Bentinho e Escobar. Tá, tá, ok, todos já sabem do papel de corno de Bentinho, mas ninguém se questionou sobre o status de corna de Capitu? Ninguém percebeu a intimidade dos dois amigos? Millô não faz interpretações, mas retira frases do próprio texto para comprovar - ou pelo menos fazer a ‘pulguinha’ atrás da orelha crescer – o relacionamento amoroso entre Bentinho e Escobar. “Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração”. “Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com tamanha força que ainda me doeu os dedos”.

Maria Fernanda Cândido na minissérie Capitu (Rede Globo)

“Por mais definições que se possa fazer sobre Capitu a sua aparência “verdadeira” fica apenas no terreno das possibilidades, deixando cada leitor a tarefa de sonhar sua personagem. ”(Alberto Schprejer).

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Relicário da memória

Por Ellen Reis

Amarelinha. Cinco Marias. Bolinha de gude. Passa anel. Roda pião. Empinar pipa. Batata quente. Pular elástico. Barra bandeira. Queimado. Sete pedras. Telefone sem fio. Pega-pega. Esconde-esconde. Adoleta. Pular corda. Jogo da memória. Mímica. Nome, lugar, objeto. Cabra cega. Estátua. Corrida de saco. Cabo de guerra. Troca sapato. Teatrinho com fantoches. Quebra- cabeça. Guerra de Travesseiro. Ioiô.
Marcha soldado. O cravo e a rosa. Nesta rua. O sapo não lava o pé. Boi da cara preta. Pirulito que bate-bate. Atirei o pau no gato. Teresina de Jesus. Escravos de Jó. Ciranda Cirandinha. Cai cai balão. Sapo Jururu. Quem é de Valentim. Dama, valete, rei. Um homem bateu em minha porta. Eu sou rico, rico, rico de maré. Eu entrei na roda. A rosa amarela. Roda pião.



O Mágico de Oz
João e Maria. Um menino muito maluquinho. Pai sem terno e gravata. Reinações de Narizinho. A turma da Mônica. Sítio do pica pau amarelo. Rute. O mágico de Oz. Branca de Neve e os sete anões. Rapunzel. A bela adormecida. Daniel. Aladin. Calliou. O pequeno urso. Esther. Cocoricó. Cavaleiro do Zodíaco. A bela e a fera. Pocahontas. Bambi. O rei leão. Pato Donald. Peter Pan. Tarzan. A dama e o vagabundo. A pequena sereia. Tom e Jerry. Ursinho Pooh.

É impossível ler esses três parágrafos e não passar um filme pela mente. O que para a geração atual é considerado obsoleto, para as gerações passadas (pode se conformar, você está ficando velho) cada uma das brincadeiras, das músicas, dos livros e dos desenhos animados era o auge da diversão. É bem verdade que a tecnologia obscureceu muitos dos hábitos antigos e o que era brincadeira de todo mundo, hoje em dia é diversão de um só. Todas essas palavras citadas nos parágrafos anteriores, ainda que isoladas, provocam algo dentro de nós: a certeza de que o tempo passou! Mais uma vez vale o momento nostalgia!


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Poesia, HQ’s e audiovisual: a obra cabralina se eterniza.

Por Ellen Reis

Morte e Vida Severina em Quadrinhos (2005)
Com inspiração no livro Morte e Vida Severina (1956) de João Cabral de Melo Neto e em Morte e Vida Severina em Quadrinhos (2005), produzida pelo cartunista Miguel Abreu de Falcão, foi que a Escola de Audiovisual (OZI), localizada no estado de Brasília, realizou a versão audiovisual da obra-prima cabralina. O desenho animado é um filme de 50 minutos de animação feito para a TV Escola/ Fundação Joaquim Nabuco. A pré-estréia do filme foi no dia 13 de dezembro do ano passado no Cinema da Fundação dentro da amostra Retrospectiva 2010/Expectativa 2011.

No Auto de Natal Pernambucano Cabral conta a história dos tantos Severinos de Maria, filhos de Zacarias que saíam da Paraíba para fugir da seca e da fome. Com o desejo de chegar em Recife, Severino parte da sua terra guiado apenas pelo Rio Capibaribe. Ao longo do caminho o personagem se depara com inúmeras mortes e, sem muitas esperanças em relação ao futuro, só sabe que precisa andar para fugir da velhice que mata os jovens do sertão aos 30 anos de idade. Na beira do Rio, Severino encontra com um morador da região que está prestes a ser pai. José é avisado que o seu filho nascera! O protagonista de Morte e Vida Severina participa do momento de confraternização dos vizinhos com os pais da criança e é impactado com aquele nascimento: o único que vira durante sua viagem. Por fim, o recém pai fala a Severino que todos os questionamentos que ele tem “sobre a vida não dá para responder”, mas uma coisa é certa: dá pra viver a vida!

Escultura de João Cabral
na Rua da Aurora, Recife.
A obra-prima de João Cabral de Melo Neto (pertencente à Geração de 45, levando em conta somente o critério cronológico) se enquadra no primeiro dos três grandes níveis de preocupação temática: o Nordeste, A Espanha e A Arte. São objetos de verificação e análise os retirantes, suas tradições, seu folclore, a herança medieval e os engenhos; de modo muito particular, seu estado natal, Pernambuco, e sua cidade, Recife.




A Obra em animação
Diante da riqueza da obra, tanto Miguel Falcão quanto os profissionais da Escola de Audiovisual, conseguiram, com fidelidade, dar vida e movimento aos personagens. A animação aparece em preto e branco justamente para mostrar a aspereza do ambiente, do próprio texto e dos traços em quadrinhos. O desenho animado está disponível no canal da OZI no youtube, e no site da TV/Escola. 



E você poderá conferir também aqui no blog:




Confira também o Making of da produção:



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Palavra

Por Ellen Reis

“... tudo começou quando a sociedade precisou criar um código reconhecido e aceito por todos, o qual seria usado para operar as relações familiares, sociais e econômicas” (Zilberman/1999)

Signos. Alfabeto. Oralidade. Ensino. Registro. Documentação. Divulgação. Essas palavras não representam (ou talvez sim) uma forma linear de abordagem histórica da leitura, as estradas literárias são muito mais complexas para que se submetam ao enquadramento. Entretanto, esses sete significados/significantes remetem uma temporalidade: decodificação dos primeiros sinais (cores, formas...); criação do alfabeto; conhecimento passado através do diálogo; necessidade de criar formas de preservação do que já tinha sido descoberto; arquivo; preocupação de ensinar o povo a ler. Tudo isso é para dizer que o surgimento da leitura foi algo gradativo; percebeu-se a necessidade de criar um código comum para estabelecer relacionamento. Dessa forma, por mais que hoje a leitura seja referenciada, por muitos, como uma atividade isolada, ela foi construída sobre a base do coletivo e é por essa razão que seu surgimento ultrapassa os limites de uma única mente com o objetivo de atingir todo o terreno que existe em todas as outras mentes. Hoje, milhares de eventos e projetos literários percorrem o Brasil e o mundo: Bienal do Livro, Fliporto, Leitura nos trilhos, Primavera dos Livros, Feira do livro. Isso revela que a leitura (ou a literatura) tomou proporções tão grandes que é impossível não estar conectado com as palavras. 

A Bienal do Livro está em sua 8º edição e desta vez aborda o tema "Literatura e Cidadania". O centro de convenções, anualmente, é o palco do terceiro maior evento do gênero no país. Este ano a Bienal de Pernambuco homenageia o centenário de Mauro Mota e o autor Ronaldo Correa de Brito. Para quem quiser conferir, ainda dá tempo. O evento vai até o próximo domingo dia 02 de Outubro.

A Festa Literária Internacional de Pernambuco ocorrerá dos dias 11 a 15 de novembro deste ano, em Olinda (Praça do Carmo). Em sua sétima edição tem como tema "Uma viagem ao Oriente".


A biblioteca Leitura nos Trilhos localiza-se na Estação Central, linha centro, do metro do Recife. A instalação da biblioteca é um iniciativa do Instituto Brasil Leitor em Pernambuco(IBL) que tem o objetivo de expandir o uso e a familiaridade com os livros, jornais e revistas,  disseminando o ato da leitura em espaços pouco convencionais, como o metro. Os livros podem ser emprestados com o prazo de 10 dias de entrega. Para se tornar associado basta apresentar RG (xerox e original), um comprovante de residência atual (original e xerox) e uma foto 3X4. O empréstimo é gratuito. Para mais informações entre no site do IBL: http://www.brasilleitor.org.br


A Primavera do Livros acontecerá dos dias 24 a 27 de Novembro deste ano no Jardim dos Museus/Rio de Janeiro. Serão realizadas palestras, debates, encontros com autores, lançamento de livros e apresentações artísticas. O evento que terá sua 11º edição terá seus ingressos oferecidos gratuitamente.





           "A palavra é o meu domínio sobre o mundo." (Clarice Lispector)

Curiosidade 

Se é para falar de evento inusitado este vale um destaque:

A empresa de design de mobília IKEA instalou 30 móveis ao longo das praias australianas e as encheu de livros. A iniciativa da empresa estimulou não apenas a venda dos seus móveis (filiais da empresa podem ser encontradas atualmente em diversos países ao redor do mundo), mas também a leitura. Apesar desse "evento" ter acontecido no ano passado,  vale ser relembrado porque afinal "recordar é viver".



Segue abaixo um vídeo com a música "Palavra"(O Teatro Mágico):




quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Jorge Amado: do centenário de nascimento aos dez anos de morte

Por Ellen Reis

 “Não escrevi o meu primeiro livro pensando em ficar famoso. Escrevi pela necessidade de expressar o que sentia”. (Jorge Amado)

Clique na foto para ampliar
Com amor no nome, Jorge Leal Amado de Faria foi um dos maiores representantes do modernismo da década de 30. Imprimiu o retrato direto da realidade do povo brasileiro, mais especificamente da Bahia, lugar onde nasceu. Obras como Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos e Gabriela Cravo e Canela são dotadas de grande cunho social e apresentam um enorme valor histórico. Nesses livros, há uma escancarada valorização da identidade feminina, enquanto construção social, e um saudoso relato da posição da mulher: há um hibridismo entre a necessidade de ultrapassar os limites da imagem e a manutenção do estilo de vida tradicional latente na época. Dramaturgo, jornalista, poeta, cronista, literário, crítico e quantas mais definições o derem, Jorge Amado que nasceu no dia 10 de Agosto de 1912 completaria, em 2012, cem anos se estivesse vivo.
Bastidores do filme Capitães de Areia
Foi nessa atmosfera de comemorações que o ano de 2011 se iniciou. Com o objetivo de homenagear o centenário do maior romancista ficcional do Brasil o país é palco de grandes eventos. No dia 10 de Agosto deste ano a cineasta Cecília Amado, neta do escritor, anunciou a data de lançamento do longa-metragem Capitães de Areia para o dia 7 de Outubro. Já a cantora Daniela Mercury, no carnaval de 2012, pretende encarnar os personagens das histórias do autor como Dona Flor e seus Dois Maridos e Tieta do Agreste, em seu figurino. Além disso, há inúmeras homenagens sendo realizadas em escolas e Academias espalhadas pelo país. Tudo isso só faz crer que, ainda bem, as palavras proféticas de Jorge Amado não se concretizaram: “Quando eu morrer vou passar uns 20 anos esquecido."
Zélia Gattai e Jorge Amado
Zélia Gattai, sua esposa, era o mais belo romance de Jorge Amado. Os 56 anos de cumplicidade e companheirismo, e quase 40 anos vividos no bairro do Rio Vermelho em Salvador, revelam a junção de dois artistas que, encantados pela vida, conseguiram marcar a literatura modernista de tal forma que premanecem até hoje.  Para preservar essa imagem, a família Amado tem lutado para que a casa onde o casal viveu se torne museu; um dos endereços mais conhecidos do Brasil que foi, por muitos anos, cenário de valorização dos signos culturais da Bahia. Lá eles receberam familiares e amigos ilustres.
Contemporâneo de Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, Jorge Amado está morto há 10 anos, mas , assim como seus amigos da geração regionalista de 1930, tem necessidade de existir e o faz em cada um dos seus escritos.

Confira: Chico Buarque lê Jorge Amado: